No Brasil desde 2008 o enfoque da farmácia hospitalar é clínico-assistencial, devendo atuar em todas as fases da terapia medicamentosa, não apenas nos serviços administrativos relacionados à compra e ao armazenamento dos medicamentos hospitalares.

Em agosto de 2014, através da publicação da lei nº 13.021 a saúde pública conseguiu a permanência obrigatória do farmacêutico por todo período de funcionamento do hospital.

E a previsão era que até 2018 todas as farmácias hospitalares no Brasil possuíssem a assistência farmacêutica em período integral, incluindo feriados e fins de semana.

Estamos em 2021 e essa realidade ainda não é verdadeira para muitos hospitais no Brasil.

O Covid-19 está mudando o mundo em diversos aspectos e na saúde a eficiência no cuidado de todos é obrigação. E para isso os exemplos de sucesso e as comparações construtivas são cada dia mais saudáveis para compreender muitos erros, diminuir e acabar com inseguranças responsáveis por muitas das variabilidades.

O farmacêutico clínico permite mais atenção ao tratamento medicamentoso e a comunicação entre os profissionais diminuindo os erros.

De acordo com James Reason, não podemos mudar a condição humana, mas podemos mudar as condições do trabalho humano.

E através disso discussões e definições de condutas permitem mais segurança para segurança do paciente na prescrição, dispensação e administração de medicamentos.

Os Rounds multidisciplinares promovem a evolução dos pacientes de forma conjunta. As reuniões rápidas entre os profissionais para discutir os casos dos pacientes internados permitem melhor comunicação entre os profissionais através da discussão e definição de condutas.

O farmacêutico clínico deve fazer intervenções para garantir o uso correto dos medicamentos, para otimizar os resultados clínicos dos pacientes, para monitorar e acompanhar os medicamentos administrados no paciente sempre com segurança e efetividade.

As suas intervenções precisam envolver:

  • Horário certo dos medicamentos;
  • As apresentações e vias de administração;
  • As diluições e tempos de infusão;
  • A posologia e as duplicidades;
  • Os fluxos de trabalho (ex: grau dos curativos e alergias do paciente) e;
  • Informações importantes sobre o paciente (ex: Se houve Interações medicamentosas, ajuste de doses, se o paciente é diabético, se tem alguma deficiência de vitamina, se é idoso ou criança);

Além de mais segurança no cuidado será consequência economias através de:

  • Prescrições mais coerentes e menos medicamentos utilizados pelos pacientes;
  • Menos procedimentos médicos;
  • Menor permanência do paciente no hospital;
  • Menor readmissão de pacientes após 30 dias de alta;
  • Menos exames laboratoriais;

Estudos realizados na Europa e na Austrália constataram a importância da Farmácia clínica em seus sistemas de saúde.

Foram estudadas situações em que quanto maior a presença de farmacêuticos menor o número de mortes de pacientes. E quanto maior o investimento em farmácia clínica, menores os gastos com eventos adversos.

Nesses países a busca por mais qualidade nos serviços de saúde é constante e o dinheiro que é investido na saúde é valorizado e possui monitoramento adequado.

 

Importância da Farmácia Clínica

O artigo Impact on Patient Outcomes of Pharmacist Participation in Multidisciplinary Critical Care Teams: A Systematic Review and Meta-Analysis publicado em 2019 e realizado na Coréia avaliou a inclusão de farmacêuticos de cuidados críticos em equipes multidisciplinares de UTI sobre desfechos clínicos incluindo mortalidade e tempo de permanência na UTI e EAs de drogas.

De acordo com os dados coletados a atuação dos farmacêuticos clínicos interferiram diretamente na reconciliação medicamentosa, 51,27% das prescrições analisadas, nos atendimentos por telefone dos pacientes pós alta de 45%, na informação para as altas hospitalares 52%, na aderência aos planos terapêuticos 25%, e na redução de interação medicamentosa 30%.

A aceitação das interferências farmacêuticas foi de 75%, os serviços que mais aderiram, 80% foram de neurologia, medicina interna e comunitária.

E as maiores interferências foram sobre o horário da administração do medicamento, apresentação, via de administração e posologia.

Para que toda a equipe multidisciplinar entenda a importância do farmacêutico clínico durante os tratamentos dos pacientes, o farmacêutico precisa conquistar seu espaço.

Para isso é preciso definir e padronizar qual o método ideal e análise farmacêutica adequada, quais os treinamentos contínuos dos profissionais, além de competência técnica dos farmacêuticos para discutir, sempre com segurança, situação complexas e desafiadoras do dia-dia dos hospitais.

Infelizmente muitos hospitais não sabem nem por onde começar a implementar práticas da farmácia clínica. Primeiro é preciso uma equipe técnica ciente sobre necessidade de processos farmacêuticos seguros e bem definidos.

A revisão das prescrições farmacêuticas, o fracionamento, o armazenamento e controle dos medicamentos devem ser seguros e eficientes para garantir que aos poucos os processos da farmácia clínica sejam inclusos no dia a dia da farmácia.

 

Conclusão

Para a farmácia clínica também se tornar mais uma barreira imposta no processo de medicação e para diminuir os problemas relacionados ao uso de medicamentos como erros, uso desnecessário ou falta indicação clara de vários medicamentos, a tecnologia é um grande aliado, pois através das prescrições eletrônicas, softwares, máquinas de unitarização, dispensários e armários inteligentes, conferência eletrônica beira leito, fácil acesso à internet ações com maior padronização nos processos possibilitarão gerar mais segurança nos processos de medicação.

Os Critérios de gravidade dos EAs, frequência e os custos gerados erros e EAs devem ser muito bem analisados para se implantar atenção clínica de qualidade.

Assim, a implantação da farmácia clínica em conjunto com os sistemas tecnológicos seguros será possível:

  • Diminuir as incompatibilidades medicamentosas e interações medicamentosas,
  • Verificar a dose efetiva e necessidade do tempo de tratamento dos pacientes;
  • Diminuir erros de medicação como erros no fracionamento, na diluição, na dispensação e na administração;
  • Facilitar o acesso as informações sobre os medicamentos e sobre os pacientes melhorando o acompanhamento fármaco terapêutico, possibilitando análise do plano terapêutico e gerenciamento de todas as intervenções que deverão ser realizadas no paciente durante todo o tratamento no hospital e até mesmo depois da alta.
  • Diminuir a variabilidade, gerando maior segurança e qualidade em todos os processos.

E conforme o guru da qualidade W. Edwards Demming disse:

“If I had to reduce my message for management to just a few words, I’d say it all had to do with reducing variation”.

A redução da variação possibilita salvar vidas e agregar valor nos cuidados de saúde hospitalar para garantir a Segurança do Paciente.

 

Daniela Faria – Farmacêutica CRF/SP 51.617
Gerente de Segurança do Paciente – Opuspac Ltda